A Casa Adyen 2026 deixou uma mensagem difícil de ignorar: o comércio está mudando menos pela chegada de uma tecnologia isolada e mais pela combinação entre IA, pagamentos, dados, infraestrutura e confiança. Ao longo do evento, executivos de empresas como Adyen, Visa, Mastercard, Elo, Uber, RD Saúde, Google e Serasa Experian mostraram onde essa transformação já aparece na operação — e quais temas ainda estão cercados de hype. Nesta edição da Radar do Comércio, reuni os sinais que mais importaram para quem está pensando os próximos anos de varejo, tecnologia e pagamentos.
Na edição de hoje:
o que a Adyen está chamando de infraestrutura inteligente;
por que comércio agêntico deixou de ser conceito;
o que os líderes de pagamentos acham que muda até 2030;
onde o fator humano segue insubstituível;
e o pano de fundo macro que ninguém pode ignorar.
🚀 O evento começou com uma tese clara
Thaís Fischberg abriu a Casa Adyen com três perguntas que organizaram bem o dia: onde investir quando tudo parece urgente, o que acontece quando a IA assume o controle e como os líderes estão lidando com a transformação.
Teve também um dado que ajuda a dimensionar o momento da operação: a Adyen reportou crescimento global de 19% em receita ano contra ano, enquanto a América Latina cresceu 43%. Na leitura da executiva, isso reflete o crescimento do comércio dos próprios clientes na região.
“Quanto mais a tecnologia assume a execução, mais importante fica o julgamento de quem toma a decisão.” — Thaís Fischberg, presidente da Adyen na América Latina
Por que isso importa: a mensagem de abertura deu o tom do evento inteiro. Menos fascínio por ferramenta isolada, mais discussão sobre decisão, prioridade e execução.
🤖 IA saiu do hype e entrou na jornada
Se houve um tema dominante, foi este: IA já está mexendo na descoberta, no checkout, no pagamento e no pós-venda.
Roelant Prins resumiu isso dizendo que pagamentos estão deixando de ser só processamento de transação para virar infraestrutura inteligente. Karan Katyal levou a conversa adiante ao mostrar que ChatGPT e Gemini já têm cerca de 1 bilhão de usuários ativos semanais cada, com cerca de 20% das consultas carregando intenção comercial. E mais: tráfego vindo de LLMs converte até 50% melhor do que busca orgânica tradicional.
A Adyen apresentou sua resposta para esse cenário com o Adyen Agentic, lançado cerca de dois meses antes do evento, como uma camada modular para discovery, cart e payments em superfícies de IA.
“This will be fast. It will not take very long.” — Fabio Coelho, presidente do Google no Brasil
Por que isso importa: o comércio agêntico ainda está no começo, mas já deixou de ser experimento de laboratório. Para marcas e varejistas, a discussão agora é menos “se vem” e mais como aparecer, converter e receber pagamento nesse novo ambiente.
💳 Pagamentos de 2030 devem parecer diferentes — mas não tanto
No painel com Thaís Fischberg, Marcelo Tangioni, Rodrigo Cury e Giancarlo Greco, apareceu um consenso curioso: muita coisa vai mudar, mas alguns pilares seguem firmes.
O cartão físico continua vivo até 2030, o débito segue resiliente e o parcelado sem juros ainda é visto como força estrutural do mercado brasileiro. Ao mesmo tempo, a grande mudança esperada está na autenticação: biometria, passkeys e até a necessidade de evoluir de know your customer para know your agent.
Rodrigo Cury também foi direto ao ponto ao dizer que a tese de incompatibilidade entre Pix e cartões já ficou para trás. A convivência entre trilhos foi tratada como fato consumado.
“A narrativa de que o Pix e cartões não podem conviver... a gente já superou isso há muito tempo.” — Rodrigo Cury, Visa do Brasil
Por que isso importa: o usuário final deve enxergar cada vez menos o trilho e cada vez mais a experiência. Para quem opera pagamentos, isso aumenta a pressão por autenticação melhor, menos fraude e mais interoperabilidade.
🏪 O físico não perdeu relevância
Duas falas diferentes chegaram numa conclusão parecida.
Na RD Saúde, Renato Raduan mostrou por que loja física e atendimento seguem centrais em um setor em que 95% dos produtos são os mesmos e os preços são amplamente equivalentes. A empresa opera 3.687 farmácias, tem 53 milhões de clientes ativos e registra NPS de 91 nas lojas. Mais de 40% dos respondentes nas pesquisas da companhia dizem escolher a rede pelo fator humano e pelo atendimento.
Já David Shing fez a provocação mais memorável do dia sobre essa tensão entre fluidez e contato:
“Frictionless, yes. Lack of interaction, no.” — David Shing
Ele conectou isso ao valor persistente de experiências tangíveis, citando o mercado de vinil em US$ 2 bilhões e o de câmeras em US$ 4 bilhões.
Por que isso importa: reduzir fricção continua sendo prioridade. Mas eliminar toda interação pode empobrecer a experiência. Em categorias de cuidado, confiança e decisão mais sensível, o gesto humano ainda pesa muito.
📦 Uber e RD mostraram a tecnologia invisível funcionando
Silvia Penna levou um dos melhores exemplos de tecnologia que o cliente quase não vê. O Uber Direct opera entregas white label para parceiros como Shopee, Droga Raia e Drogasil, incluindo entregas em até quatro horas. No app, a Uber também já usa IA em funções centrais, como sugestão de endereço, com acerto superior a 75%.
Na RD Saúde, a tecnologia aparece em outra camada: menos para substituir gente, mais para liberar tempo e qualificar atendimento. O agente Mia apoia farmacêuticos com dúvidas técnicas e sugestões proativas durante o atendimento.
Por que isso importa: a melhor tecnologia do evento não apareceu como espetáculo. Apareceu como infraestrutura que reduz atrito operacional e melhora a ponta. Você também está vendo isso no seu setor?
Fonte: Casa Adyen 2026, palestras de Silvia Penna e Renato Raduan
📉 O pano de fundo econômico segue apertado
Nem só de inovação vive a operação. Camila Abdelmalack lembrou que 2026 segue marcado por desaceleração, juros altos, incerteza eleitoral e crédito apertado.
Os números ajudam a entender o tamanho da pressão: 83,7 milhões de CPFs negativados e 9,1 milhões de CNPJs negativados. Ao mesmo tempo, o parcelamento continua sendo peça central para sustentar consumo, especialmente nas faixas de renda mais pressionadas.
“Câmbio define inflação. Inflação define política monetária. E isso define o futuro da taxa de juros.” — Camila Abdelmalack, Serasa Experian
Por que isso importa: qualquer discussão sobre IA, checkout ou conversão em 2026 precisa passar por contexto econômico. A tecnologia avança, mas o consumidor continua comprando sob restrição real de renda e crédito.
📌 Qual foi, para você, o principal sinal da Casa Adyen 2026: autenticação, comércio agêntico, infraestrutura invisível ou volta do fator humano? Eu adoraria saber.
Por hoje é só! No próximo evento, eu volto com mais uma curadoria do que realmente merece espaço na sua semana. Até a próxima! 😉








