O debate sobre pagamentos até 2030 já passou da fase das previsões binárias. No painel “As lideranças que movem o ecossistema de pagamento”, na Casa Adyen 2026, executivos de Adyen, Visa, Mastercard e Elo defenderam uma leitura mais útil para quem opera tecnologia, risco e aceitação: o mercado não caminha para a substituição de um trilho por outro, e sim para uma convivência mais integrada entre cartões, Pix, tokenização e novos modelos de autenticação.
Os dados citados no encontro ajudam a dimensionar esse ponto. Marcelo Tangioni, presidente da Mastercard no Brasil, afirmou que os cartões já representam “77% do consumo privado”, com base em números da Abecs apresentados no contexto do mercado brasileiro em 2026. Quando se soma o Pix P2B, o volume de meios eletrônicos supera “90% das transações de consumo privado”. Isso importa por um motivo simples: a discussão central deixou de ser digitalizar pagamentos e passou a ser como autenticar, orquestrar e sustentar esse volume com segurança.
Ao mesmo tempo, previsões antigas seguem falhando. O fim do cartão físico, anunciado desde os anos 1990, não aconteceu. O débito também não desapareceu após o avanço do Pix. Rodrigo Cury, da Visa do Brasil, citou um volume em torno de R$ 1 trilhão por ano no débito, com segmentos voltando a crescer em dois dígitos. A lição para empresas de tecnologia financeira é objetiva: planejar a próxima década exige menos aposta em ruptura total e mais capacidade de operar camadas diferentes do sistema ao mesmo tempo.
A resiliência dos meios tradicionais continua subestimada
Giancarlo Greco, da Elo, foi direto ao afirmar que o cartão físico seguirá relevante até 2030. O argumento não foi nostálgico. Ele se apoia na escala global das credenciais em circulação e na capacidade de o cartão continuar existindo mesmo quando sua experiência migra para carteiras digitais, tokenização e credenciais embarcadas em outros ambientes.
Rodrigo Cury trouxe um segundo exemplo de resiliência: o débito. A expectativa de que o Pix eliminaria esse instrumento não se confirmou. Segundo ele, a Visa observa estabilidade em torno de R$ 1 trilhão transacionado por ano, além de retomada de crescimento em nichos específicos, com destaque para instituições de pagamento mais jovens e para o uso combinado de débito e pré-pago.
Esse dado ganha peso quando comparado ao comportamento do mercado brasileiro. O débito não ficou parado por inércia. Ele se manteve relevante porque continua ligado à principalidade da conta, ao uso cotidiano e à aceitação ampla. Em tecnologia empresarial, isso significa que produtos de pagamento não podem ser desenhados com base em uma tese única de migração. A arquitetura precisa acomodar permanência, não só novidade.
Marcelo Tangioni adicionou outro componente local que deve seguir forte: o parcelado sem juros. Ele classificou o modelo como uma inovação brasileira que inspirou soluções internacionais de buy now, pay later. Para varejo, adquirência e emissores, isso reforça que parte da vantagem competitiva no Brasil ainda nasce de instrumentos já consolidados, desde que recebam melhorias de segurança e operação.
O principal eixo de mudança é a autenticação
Se há um ponto de inflexão claro no painel, ele aparece na fala de Giancarlo Greco:
“O que eu acho que vai mudar muito é o processo de autenticação de uma transação.”
Giancarlo Greco, Elo
A mudança tem endereço certo. O foco está nas transações digitais, especialmente em cartão não presente, onde fraude e fricção ainda pressionam conversão e custo operacional. A expectativa apresentada pelos executivos é de avanço de biometria, passkeys e modelos de autenticação menos dependentes de senha.
Marcelo Tangioni conectou esse movimento a uma meta concreta: eliminar senhas até 2030. No painel, ele citou a transição de modelos antigos, como 3D Secure, para tecnologias mais aderentes à experiência atual de checkout. O ganho esperado não é abstrato. Melhor autenticação reduz fraude, melhora aprovação e encurta etapas da compra.
Para empresas que expõem APIs de pagamento, antifraude ou identidade, isso muda prioridades de produto. A autenticação deixa de ser uma etapa periférica e passa a ser parte central do desenho da jornada transacional. Isso inclui:
integração com biometria e passkeys
tokenização em escala
motores de decisão para risco em tempo real
governança de consentimento e delegação
O Brasil já oferece sinais de maturidade nessa frente. Tangioni afirmou que o país tem cerca de 70% das transações tokenizadas, índice que classificou como referência mundial. O dado foi citado no contexto do mercado brasileiro em 2026 e ajuda a explicar por que o debate local já avançou da digitalização para a camada de segurança invisível que sustenta a experiência.
Do know your customer ao know your agent
A parte mais nova da discussão apareceu no comércio agêntico. Rodrigo Cury afirmou que agentes conectados a plataformas conversacionais devem alterar a forma de comprar no curto prazo. A mudança, segundo ele, não está no produto em si, mas no processo de decisão, busca e execução da compra.
Giancarlo Greco levou esse raciocínio para um problema técnico mais profundo. Se um agente passa a agir em nome do usuário, autenticar apenas o cliente deixa de bastar. Nas palavras dele, o setor precisa sair do know your customer e ir para o know your agent.
Esse ponto tem implicações diretas para times de arquitetura, compliance e prevenção à fraude. Um agente que recompra itens recorrentes, negocia preço ou executa pagamentos automáticos precisa operar dentro de regras verificáveis. Não basta saber quem é o titular da conta. Será preciso saber:
qual agente recebeu autorização
por quanto tempo essa autorização vale
quais limites de valor, contexto e recorrência foram definidos
como revogar ou revalidar esse mandato
Greco citou, como exemplo, a plataforma Conselho Digital, da Elo, em que o agente atua em nome do usuário, mas depende de validações periódicas. O caso mostra que o desafio já saiu do campo conceitual. Para quem desenvolve produtos financeiros, a próxima camada de identidade digital será delegada, contextual e auditável.
Regulação redistribui incentivos, não só obrigações
O painel tratou regulação com menos dramatização e mais pragmatismo. Rodrigo Cury resumiu a postura esperada da indústria: quando o regulador entra, o setor precisa executar. A leitura dele é que a intervenção costuma sinalizar risco ou oportunidade de melhoria que o mercado não resolveu sozinho.
O efeito mais relevante dessas mudanças não está apenas na regra publicada, mas na redistribuição econômica que ela provoca. Cury citou emissores, adquirentes, subadquirentes, bandeiras e distribuidores como partes de um arranjo que precisa permanecer sustentável em todos os elos. Quando uma mudança desloca custo ou responsabilidade para um lado, o sistema inteiro precisa se reacomodar.
Giancarlo Greco reforçou que a principal preocupação está na implementação. Mudanças regulatórias grandes elevam risco operacional, exigem coordenação entre concorrentes dentro dos limites de governança e pressionam quem está na ponta da operação. Para empresas de tecnologia, isso significa que compliance regulatório não pode ser tratado como ajuste tardio. Ele precisa entrar cedo no desenho de APIs, fluxos de liquidação, reconciliação e autenticação.
Essa visão também ajuda a explicar por que o mercado brasileiro virou referência. A necessidade constante de adaptação produz soluções exportáveis. Cury afirmou que o Brasil funciona como um laboratório global de inovação justamente porque combina alta adoção digital, competição intensa e pressão contínua por resposta rápida.
Custo de aceitação sem contexto é uma métrica incompleta
A discussão sobre custo apareceu com uma distinção útil para o mercado. Giancarlo Greco e Marcelo Tangioni defenderam que a análise correta não é apenas sobre preço nominal da transação, mas sobre o valor entregue pelo arranjo.
Greco listou componentes que costumam desaparecer da comparação simplificada entre trilhos: prevenção à fraude, chargeback, onboarding, reconciliação e gestão operacional. Quando um modelo parece mais barato, muitas vezes ele apenas desloca essas funções para outro ponto da cadeia. O custo não some. Ele muda de lugar.
Tangioni resumiu essa lógica em uma frase que vale para qualquer discussão de infraestrutura de pagamentos:
“A conversa tem que ser em cima de valor e não em cima de custo.”
Marcelo Tangioni, Mastercard
O argumento ganha força quando o próprio Pix entra na conversa. Tangioni afirmou que a infraestrutura também exige investimento contínuo em evolução tecnológica, prevenção à fraude e prevenção à lavagem de dinheiro. Em outras palavras, nenhum trilho relevante opera em escala crescente sem pressão de custo, manutenção e governança.
Para empresas que escolhem entre integrar, orquestrar ou combinar meios de pagamento, a implicação é prática. O critério de decisão precisa incluir taxa de aprovação, risco, suporte a disputa, reconciliação, esforço operacional e experiência do usuário. Comparar apenas MDR, intercâmbio ou tarifa de rede produz uma conta incompleta.
Brasil exporta escala, não só criatividade
O painel trouxe números que ajudam a explicar por que o Brasil aparece com frequência nas conversas globais de pagamentos. Tangioni afirmou que o país já é o maior mercado do mundo em transações de Click to Pay, apenas dois anos após o lançamento da solução. Também citou cerca de 20% das transações comerciais do mundo em aceitação de cartões associadas ao Brasil.
Mesmo sem detalhamento metodológico adicional no painel, os dados foram apresentados como evidência de escala e velocidade de adoção. Isso importa porque inovação em pagamentos não depende só de ideia boa. Depende de volume, pressão competitiva e capacidade de implementação em ambiente real.
Rodrigo Cury acrescentou exemplos concretos dessa posição. Ele citou o lançamento de credenciais flexíveis pela Visa, a familiaridade histórica do Brasil com o cartão múltiplo e a primeira transação de comércio agêntico da América Latina, feita com Banco do Brasil e Santander. O país aparece, nesse desenho, menos como mercado de teste e mais como fonte de solução para as matrizes globais.
A mensagem final do painel é menos sobre qual trilho vencerá e mais sobre qual competência vai separar os líderes do restante do mercado. Quem operar bem autenticação, interoperabilidade, regulação e valor entregue terá vantagem real. O usuário verá cada vez menos o trilho. A empresa, ao contrário, precisará entendê-lo melhor do que nunca.


