Por trás da IA, a infraestrutura que sustenta pagamentos
Pix, regulação e IA estão elevando a complexidade dos pagamentos no Brasil. A vantagem passa por controlar tecnologia, licenças e dados para responder rápido, com segurança e previsibilidade.
A discussão sobre IA no comércio costuma correr na frente da infraestrutura. O problema é prático: sem controle sobre tecnologia, licenças e dados, a empresa até testa novidades, mas não ganha velocidade real quando o mercado muda. Foi esse o ponto central da fala de Roelant Prins, CCO da Adyen, na Casa Adyen, ao defender que a próxima década dos pagamentos será decidida menos por anúncios e mais pela capacidade de operar com previsibilidade.
A leitura faz sentido no contexto brasileiro. Segundo Prins, o Pix já é o principal meio de pagamento local da Adyen além dos cartões, com centenas de milhões de transações por mês, e cerca de 80% dos consumidores no Brasil usam o sistema. O dado importa por um motivo simples: quando um método de pagamento atinge essa escala, ele deixa de ser só um trilho transacional e passa a influenciar conversão, risco, recorrência e desenho de produto.
Pagamentos deixaram de ser só processamento
Prins resumiu essa mudança em uma frase direta:
“Payments is now transitioning into intelligent infrastructure.” - Roelant Prins, CCO da Adyen
Na visão apresentada, os pagamentos passaram por três estágios. Primeiro, eram processamento de transações e movimentação de dinheiro. Depois, viraram também infraestrutura de dados, capaz de gerar leitura sobre comportamento de compra, operação em loja, performance online e finanças. Agora entram em outra fase: a de infraestrutura inteligente, apta a entender intenção e orquestrar decisões para o merchant.
Isso altera o papel da plataforma de pagamentos. Ela deixa de atuar só no momento da cobrança e passa a participar de decisões que afetam experiência, risco e novos modelos de negócio. Em mercados complexos, esse deslocamento pesa ainda mais.
O caso brasileiro exige controle da base
A trajetória da Adyen no Brasil ilustra esse ponto. A empresa entrou no país em 2011 com um parceiro local de pagamentos e levou mais de dez anos para chegar ao modelo atual. Em 2021, lançou sua própria licença e sua própria plataforma no mercado brasileiro.
O argumento de Prins é objetivo: operar com tecnologia própria permite ajustar a solução quando o ambiente muda. Operar com licenças próprias permite definir critérios de negócio sem depender das condições, da opinião ou da situação financeira de terceiros. Em um mercado regulado, isso não é detalhe operacional. É capacidade de resposta.
Há também uma tese editorial relevante aqui: inovação e regulação não competem entre si. Para a Adyen, as duas avançam juntas quando a empresa conhece o ambiente regulatório de perto e constrói tecnologia preparada para absorver mudanças. Em serviços financeiros, previsibilidade conta tanto quanto novidade.
Pix mostrou o valor de uma arquitetura própria
O Pix aparece na palestra como o exemplo mais claro de como infraestrutura e regulação se encontram no Brasil. Prins afirmou que a Adyen acompanhou a evolução do sistema ainda da Europa e tratou seu lançamento como prioridade local.
Os benefícios destacados foram concretos:
liquidação instantânea
risco menor para o merchant
escala de uso já consolidada entre consumidores brasileiros
possibilidade de acelerar casos de recorrência
Quando o Pix Recorrente ficou disponível, a empresa conseguiu lançar a funcionalidade de imediato. Segundo Prins, isso aconteceu porque a operação já estava apoiada em infraestrutura e licenças próprias. O efeito esperado recai sobre experiência e conversão, especialmente em modelos de assinatura, nos quais recorrência é parte central da receita.
O novo padrão regulatório elevou a barra
A palestra também tratou das mudanças regulatórias que estão redesenhando o setor no Brasil. Prins citou a Resolução 522, voltada à resiliência do sistema de pagamentos brasileiro e à responsabilização direta dos instituidores de arranjos pela liquidação das transações. A norma também cria um modelo de monitoramento para facilitadores de pagamento.
Ele mencionou ainda a Resolução 561, que restringe a prestação de serviços eletrônicos de pagamento ou transferência internacional a entidades reguladas. O objetivo, segundo a leitura apresentada, é ampliar transparência e segurança nas operações cross-border.
Somadas à reforma tributária, essas mudanças alteram o requisito mínimo para operar no país. Prins listou quatro frentes que deixaram de ser boas práticas opcionais:
capital regulatório mais alto
KYC rigoroso
protocolos de “know your partner”
gestão de risco institucionalizada
A relevância disso para empresas clientes é direta. Quanto mais complexo o ambiente, mais valor tem um provedor que absorve parte dessa carga regulatória e operacional sem repassar incerteza para a ponta.
IA no comércio pede menos pressa e mais desenho
Na parte final, Prins conectou essa base tecnológica ao avanço do chamado agentic commerce, o uso de agentes de IA como novo canal de comércio eletrônico. A posição da Adyen foi deliberadamente cautelosa. Em vez de lançar um protocolo para marcar presença no debate, a empresa entrevistou centenas de clientes para entender preocupações reais sobre pagamentos, fraude, risco e relacionamento com o consumidor.
O diagnóstico foi claro: os merchants querem preservar conhecimento sobre seu cliente e manter controle sobre essa relação. Também não querem escolher, integrar e sustentar múltiplos protocolos por conta própria.
“They don’t want to have to choose which protocol to support and how to build it.” - Roelant Prins, CCO da Adyen
Daí surge a ideia de uma camada universal, capaz de traduzir a complexidade técnica sem tirar do merchant o controle comercial. Esse ponto é mais relevante do que o hype em torno da IA. Se o comércio por agentes ganhar escala, vencerá quem conseguir encaixá-lo em uma arquitetura confiável, regulada e adaptável.
A fala de Prins sugere um critério útil para separar tendência de execução. O futuro dos pagamentos não depende só de aceitar novos canais. Depende de construir uma base que responda rápido a Pix, recorrência, novas resoluções e agentes de IA sem recomeçar a operação a cada mudança. No Brasil, essa base já virou vantagem competitiva mensurável.


