ChatGPT e Gemini já operam em escala de massa, com cerca de 1 bilhão de usuários ativos por semana cada, segundo Karan Katyal, Global Head of Agent Commerce da Adyen, na abertura da Casa Adyen 2206. O dado ganha peso por um segundo número apresentado por ele: cerca de 20% das consultas feitas a LLMs carregam intenção comercial, como buscar um tênis, uma camiseta ou uma viagem. A implicação para varejistas e plataformas é direta. A descoberta de produtos já começou a migrar para interfaces conversacionais.
O sinal mais concreto não está só no volume de uso. Katyal afirmou que o tráfego que chega aos sites de merchants a partir desses LLMs converte em taxas até 50% maiores do que o tráfego de busca orgânica tradicional. Isso explica por que o tema deixou de ser especulação para entrar na agenda de 2025 e 2026. A discussão já não é se agentes participarão da jornada de compra, mas como preparar catálogo, checkout e pagamentos para esse novo ponto de entrada.
Na palestra, antes do painel, Katyal organizou esse movimento em uma tese simples: o comércio agêntico depende de nova infraestrutura. E essa infraestrutura precisa funcionar fora dos canais próprios do merchant, em superfícies de terceiros, com interoperabilidade suficiente para evitar uma nova rodada de integrações fragmentadas.
Quatro modelos, estágios bem diferentes
Katyal separou o comércio agêntico em quatro categorias. A primeira, e hoje a mais madura, é o human-in-the-loop. Nela, o consumidor conversa com um agente, recebe opções, escolhe um produto e conclui a compra dentro da própria interface conversacional. O ponto decisivo é que ainda existe uma ação humana no momento do pagamento.
A segunda categoria é o consumer autonomous commerce. Aqui, o usuário define um mandato, como comprar uma passagem quando o preço cair abaixo de um valor, e o agente executa a transação sem voltar para pedir confirmação no momento final. Katyal tratou esse modelo como promissor, mas ainda experimental.
As outras duas frentes são machine-to-machine payments, quando um software compra insumos de outros softwares para cumprir uma tarefa maior, e B2B procurement, em que agentes automatizam compras entre empresas. Ambas aparecem como oportunidades grandes, mas em estágio inicial.
Essa divisão importa porque evita um erro comum no debate. Nem todo comércio agêntico exige autonomia total. O caso mais avançado hoje é justamente o que preserva supervisão humana na etapa crítica da compra.
O problema real está na infraestrutura
Na visão apresentada por Katyal, qualquer fluxo de comércio agêntico continua apoiado em três etapas: discovery, checkout e payments. O que muda é o ambiente em que elas acontecem. Em vez de rodar apenas no site ou no app do merchant, passam a acontecer em interfaces de IA operadas por terceiros.
No discovery, o desafio é tornar o catálogo legível por máquina e distribuí-lo para diferentes plataformas. No checkout, entram os sistemas que normalmente ficam escondidos atrás do botão de compra: gestão de pedidos, cálculo de impostos, faturamento, frete, fulfillment e programas de fidelidade. Em pagamentos, o ponto crítico é fazer a credencial sair do shopper, passar pelo agente e chegar ao merchant com segurança e fluidez.
Esse desenho cria um problema dos dois lados. Merchants não querem reconstruir a pilha tecnológica para cada nova superfície de IA. As plataformas de IA também não querem integrar, uma a uma, dezenas de milhares de empresas. Katyal descreveu essa fricção como recorrente nas conversas da Adyen com centenas de merchants.
O centro da tese é interoperabilidade em escala. Sem isso, o comércio agêntico vira uma coleção de pilotos isolados, caros de manter e difíceis de expandir.
O que a Adyen colocou no mercado
Foi nesse contexto que a Adyen lançou o Adyen Agentic, cerca de dois meses antes da palestra, segundo Katyal. A proposta é funcionar como uma integração modular para os três pontos da jornada: descoberta, carrinho e pagamento.
O primeiro módulo é o Agentic Feed, voltado à tradução e à distribuição do catálogo para diferentes plataformas de IA. O segundo é o Agentic Cart, uma API única para expor a pilha de comércio do merchant a essas superfícies externas. O terceiro é o Agentic Payments, que permite aceitar pagamentos originados em experiências agênticas.
A escolha por modularidade não é detalhe de produto. Katyal enfatizou que merchants podem adotar quantos módulos fizerem sentido, sem obrigação de reconfigurar tudo de uma vez. Isso reduz atrito de entrada e respeita a heterogeneidade das stacks corporativas, em que pagamentos, e-commerce, loyalty e backoffice costumam estar distribuídos entre vários fornecedores.
Os pilotos iniciais citados por ele incluem Sézane, Scheels, ESW e SharkNinja. Depois desse primeiro grupo, a Adyen adicionou mais meia dúzia de merchants em categorias como vestuário, calçados e outros segmentos de varejo. Katyal também mencionou parceiros do ecossistema com os quais a empresa está construindo essa camada, entre eles Google, OpenAI, Visa, Mastercard, Amex e Salesforce.
Por que discovery virou prioridade
A palestra de Katyal ajuda a reposicionar o debate. Durante anos, a principal preocupação do varejo digital esteve em otimizar mídia, navegação e conversão dentro de propriedades próprias. No comércio agêntico, a disputa começa antes, na capacidade de ser encontrado e compreendido por um agente. Quando um usuário pede!


